Gaiense Luís Monteiro coloca a luta contra o fascismo no Porto à vista com 'Memória(s) à procura de lugar'
É no Lino Espaço Cultural que, desde 4 de abril, dez testemunhos da resistência ao fascismo na região do Porto ganham protagonismo, tanto pela voz dos próprios, como pelos objetos pessoais, que servem "de mediação entre o público e a memória daquela pessoa" que visita a exposição 'Memória(s) à procura de lugar', inserida na tese de doutoramento de Luís Monteiro, ex-deputado na Assembleia da República e investigador do CITCEM – Centro de Investigação Transdisciplinar “Cultura, Espaço e Memória”.
"Foram entrevistadas dez pessoas que tiveram diferentes percursos de vida, mas todas elas tiveram, em algum momento da sua juventude, início da idade adulta, organizadas contra o fascismo. Algumas clandestinamente, outras porque foram presas políticas, outras porque tinham algum tipo de trabalho cultural ou literário e viram a censura proibir esses mesmos trabalhos e outras pessoas que, na verdade, nem estiveram clandestinas, nem estiveram presas, mas estavam organizadas coletivamente contra o Estado Novo", detalha Luís Monteiro.
Entre os testemunhos estão os de Manuela Juncal, arquiteta de profissão, e que inclusive trabalhou na Câmara Municipal de Gaia, na Gaia durante muitos anos, e do fotógrafo gaiense Sérgio Valente. Mais pormenores serão divulgados na edição impressa do jornal O Gaiense de 25 de abril.
A exposição está patente até 2 de maio na Rua de Olivença nº54, no Porto, de terça a sexta-feira, entre as 14h30 e as 19h, e aos sábados e domingos, das 10h às 19h.
Apresenta ainda uma cronologia particular, que contextualiza as especificidades regionais da luta contra o regime. "A partir do momento em que há públicos mais jovens e ela própria é um fragmento dessa história, não vale a pena nós colocarmos aqui quadros cronológicos altamente complexos que, na verdade, dificultam a leitura e a compreensão daquele período histórico, em vez de ajudar. Foram escolhidos alguns momentos que me parecem particulares para podermos versar sobre algumas temáticas desse período. A primeira data, 3 de fevereiro de 1927. No Porto, aconteceu a primeira tentativa organizada de derrube, ainda da ditadura militar, pelo grupo conhecido pelo Reviralho, que era um grupo que ainda vinha da Primeira República. Estamos a falar apenas um ano após o golpe fascista de 1926. É o primeiro grande momento organizado aconteceu no Porto", recorda Luís Monteiro ao apontar para a linha do tempo pintada nas paredes.
Além de uma 'jóia' da propaganda - um copiógrafo - a exposição também tem elementos interativos, como uma instalação multimédia que permite aos visitantes enviar textos para a 'Censura'. "Duas pessoas, Gonçalo Ferreira e o Hugo Guia, ajudaram-me a pensar esta instalação multimédia, e o que nós propomos com este tablet é uma aplicação chamada 'Visado pela Censura', o Lápis Azul, em que, através da leitura sistemática, numa lógica de inteligência artificial, produzida por nós, não de grandes multinacionais, um computador de inteligência artificial lê um conjunto de teses relativas à censura e, através de um conjunto de palavras-chave que não eram permitidas durante o Estado Novo, é possível, qualquer visitante da exposição, escrever neste tablet, o que bem entender, e um conjunto de palavras-chave são emitidas automaticamente. Além disso, é possível enviar o texto para ser analisado pela censura, neste caso, pelo tal computador que, através de uma amostra, faz essa análise e é produzido um pequeno relatório da censura", detalha o investigador.
Vários pormenores desta exposição serão revelados na edição impressa do jornal O Gaiense de 25 de Abril. Entretanto, abaixo fica a programação paralela à exposição, que inclui a realização de oficinas, workshops e debates e sessões de cinema.
25 de Abril, sábado
10:30 Oficina de Cartazes para o 25 de Abril no Fisga Space (Rua Santos Pousada 826)
18:30 Festa da Liberdade! - Concerto de Fred Menos / Chiné (dj set)
26 de abril, domingo
16:00 Fragmented (2025): cinema e conversa, com Balolas Carvalho (realizadora) e Pedro Levi Bismarck (Investigador no CEAU-FAUP)
30 de abril, quinta-feira
21:00 “Escola e Cidadania na era das redes”, com Inês Homem de Melo (Psiquiatra), João Costa
(Presidente do Comité de Políticas Educativas da OCDE; ex-Ministro da Educação), moderação de Cláudia Ribeiro (Professora e Investigadora no CITCEM-UP)
2 de maio, sábado
15:00 “Democracia em crise”, conversa com Fernando Rosas (historiador), Francisco David Ferreira (jornalista)

