MÁRIO AUGUSTO VALORIZA SURPREENDENTE RESILIÊNCIA DA FILHA RITA

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14-05-2022 | 17:16 | | |

MÁRIO AUGUSTO VALORIZA SURPREENDENTE RESILIÊNCIA DA FILHA RITA

Escrito por O Gaiense

O jornalista gaiense Mário Augusto, de 59 anos, tem vivido um momento delicado nos últimos tempos pois a sua filha, Rita Bulhosa, que foi diagnosticada com paralisia cerebral desde muito cedo, foi submetida a uma complexa operação à coluna,

Hoje, Mário Augusto escreveu:

Como por cá andei a espalhar a minha preocupação e relatei o que nos inquieta por estes dias dando conta das angústias, da boa disposição da Rita, da atitude, das aflições e também do choro que apesar de raro chega com as dores e a notícia que ficaria mais dez dias, o que é de valorizar é a surpreendente resiliência dela. Já lá vão 15 dias de internamento que começou com uma urgência de dor aguda na coluna. Hoje fiquei com a Rita, fiz o turno da noite para dar descanso a Paula. Foi mais uma noitada de boa conversa que me lavou a apreensão que persistia.

Esta manhã andei pelos corredores do Hospital a procurar o café da manhã em chávena (as maquinetas conflituam comigo e ainda mais, dão um dos meus prazeres matinais num copinho de papelão...enfim!). Andava eu meio perdido nos corredores neoclássicos do Santo António e fui dar a um lugar que reconheci de lá ter estado há anos. Foi também um dia triste em que a Rita também chorou com vontade, percebendo de uma pequena lesão que lhe ficou de uma operação. Lembrei-me enquanto saboreava o café que na altura escrevi sobre o choro da Rita e o que lhe disse na altura, a propósito de um choro compulsivo de desilusão. Tantos anos depois, faz sentido recuperar esse registo da altura.

Há um carreirinho de água que ganha caminho e escorre pela face. Cada olho chora por si, mas juntos afogam as mesmas angústias, as mesmas dores e mágoas. Começa por um grito baixinho, agudo, bem apertado nas paredes da voz. São aqueles momentos tristes que não cabem num coração aflito, descem cara abaixo como os pingos da chuva que não se aguentam nas nuvens e desprendem-se em gotas soltas sem saber onde parar.

Os primeiros respingos de um temporal fazem um barulho seco ao bater no chão de terra. Ficam ali sozinhos à espera que outros cheguem e façam caudal. Começa por ficar aquele cheiro de terra molhada, depois, enquanto a nuvem segue o caminho cinzento, vêm outras gotas e mais gotas, cada vez maiores que encharcam a terra, desenvolve-se no lamaçal que dói. As lágrimas também se fazem assim. Se é uma sozinha, duas ou talvez três sem tempo, apenas denunciam a alegria confirmada pela expressão. Ah, mas a dor, essa faz-se de muitas lágrimas, um choro compulsivo que mostra tristeza e revolta.

Nada dói mais do que eu já vi, ela chorava com sentido, sem birra nem dor física, mas com aquela dor de alma. Chorava num desespero cortante, na constatação inconsciente daquela pergunta que sempre fazemos nos cruzamentos desconhecidos: – Então e agora? Por onde vamos?

Ela rasgava o choro como quem rasga um papel com raiva. Esteve assim minutos que pareciam horas, e eu a conter-me para não sentir o contágio. Afagava-lhe a mão, encharcava o lenço com a água de sal que lhe corria na face e parecia um rio. Eram lamentos num carpido amarrado e forte. Cada lágrima vertida, naquele travo azedo da vida, dizia uma verdade sem palavras. Uma água salgada que humedecia a vontade de seguir em frente.

Guardo este episódio como se fosse ontem pela manhã. Foi cedo que este choro veio. Como dizia Dickens: - “Nunca devemos envergonhar-nos das nossas próprias lágrimas”.

Quando a vi chorar num pranto que doía, lá deixou que eu lhe dissesse ao ouvido que as lágrimas não regam flores. Contei-lhe do arco-íris que ela não conseguia ver: - “Olha, estás a ver? É aquele colorido que se esconde sempre atrás de uma nuvem escura, logo depois da chuva forte”.

Lembrei-lhe coisas do “Principezinho” e da sabedoria de Antoine de Saint-Exupéry, que escreveu:

“Se choras por ter perdido o sol, as lágrimas vão-te impedir de ver as estrelas...”

Ela nunca mais chorou assim. Escondeu a marca da dor e sorriu para que as flores pudessem crescer.

Hoje a Rita já tem choro de adulta, mas quando chora, não sei onde vai buscar a energia e não dá hipótese sequer a que o caudal seja grande suficientes para experimentar regar as flores da vida. Ela sabe que que é a sorrir que energiza o canteiro colorido dos dias.

Um abraço, bom fim de semana e faz todo o sentido dizer – a luta continua.

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