DONA MARIA JOSÉ A SENHORA MINHA MÃE
Amanhã é dia da Mãe. Confesso que, como já sou algo antigo, estava mais habituado que ele fosse a 8 de dezembro. Mas, a data, é, foi sempre para mim, um mero proforma, porque, na realidade, o dia da mãe deve ser todos os dias. Já ‘perdi’ a minha há muitos anos. Era eu ainda um jovem.
Mas, como reparam, coloquei a palavra perdi, entre aspas. Porque, efetivamente, nunca a perdi. Estive - estou - sempre com ela e ela está sempre, sempre comigo. Encontramo-nos todos os dias e todos os dias falo com ela. Conto-lhe, antes de dormir, como foi o meu dia. Falo-lhe das deceções, mas também das minhas alegrias. Conto-lhe tudo. E ela, como sempre o fez, mesmo quando ainda estava cá fisicamente, ouve-me atentamente. Sim, fica em silêncio, mas eu sei o que ela aprova e o que gosta menos.
A Dona Maria José era uma pessoa simples. Nasceu em Castelo de Paiva e veio para o Porto, muito nova, à procura de uma vida melhor. Não teve oportunidade de estudar. Formou-se, porém, na Universidade da Vida. Numa fase (ela, inclusive, viveu a II Guerra Mundial, entre 1939 e 1945) em que os princípios como a honestidade e a honradez da palavra dada se formavam não na Escola, mas nas pedras da rua, nos bairros onde se vivia, com as muitas dificuldades que a vida criava, mas que não as impedia de ser firmes nos valores. Onde se partilhava o pouco que se tinha porque bondade e generosidade eram palavras que se praticavam e não mera circunstância. Foi com ela que bebi a formação que, por acaso, tentei manter toda a vida. Foi com ela que moldei o meu caráter.
À sua semelhança. E sei, porque ela me diz, que está orgulhosa de mim. Se ela fosse viva, ficaria perplexa com a alteração de valores que hoje proliferam na nossa sociedade: a falta de honestidade. De princípios. De verdade. De respeito. De valores. De honradez. Sim, ela não foi à escola. Mas soube, como se fosse a melhor professora, transmitir-me que a honradez deve ser um princípio do qual não devemos abdicar. Que não devemos olhar por cima para nenhuma pessoa, a não ser para a ajudar a levantar do chão. Se ela cair.